EDUARDO SCOLESE
COORDENADOR DA AGÊNCIA FOLHA
Isolamento.
Esse é o principal argumento de distritos e vilarejos que querem se
transformar em municípios. Abaixo, dois exemplos: 1) Em Uruçuí, no
Piauí, existe uma comunidade formada basicamente por produtores de soja
chamada Vila Nova Santa Rosa. Caso um deles precise dar um pulo na
prefeitura ou procurar pessoalmente algum vereador, por exemplo, terá de
rodar 180 km numa estrada de terra, num trajeto de cerca de três horas
sempre dentro do mesmo município.É como se um morador de São Paulo
precisasse se deslocar até Campos do Jordão para pegar a segunda via de
um boleto de IPTU. Gasto de tempo e de dinheiro.
2)
Situação semelhante, e com os mesmos sentimentos emancipatórios, vive o
distrito de Roda Velha, no município baiano de São Desidério.São 130 km
da zona urbana da cidade até o distrito, rico em produção de soja e de
algodão e que alavanca o município à posição de maior PIB agrícola do
país.Em Roda Velha só há posto de saúde. Numa emergência é preciso
percorrer a distância entre Recife e João Pessoa até o hospital no
centro da cidade. De novo, gastos com tempo e dinheiro.Essas duas
realidades seriam bons argumentos para desmembrar o distrito e criar um
município, uma nova prefeitura, novas secretarias, uma nova Câmara e,
claro, novas vagas para vereadores.
Uma
nova cidade em tempos de prefeituras falidas, dependentes de esmolas
dos governos estaduais e do Planalto e sem dinheiro até para pagar seus
funcionários.Mas essas justificativas à parte, o que mais move campanhas
de emancipação é a simples ambição política.Vereadores, opositores do
prefeito e outros líderes comunitários enxergam na criação de uma nova
cidade a oportunidade de, enfim, assumir uma prefeitura. Isso não mudará
com a sanção presidencial das novas regras para criação de municípios
aprovadas no Congresso.
O
que pode acontecer agora, sim, é uma adaptação dos políticos às novas
regras. Elaborar um estudo de viabilidade, convencer os deputados da
Assembleia e arregimentar assinaturas para iniciar o processo não é
tarefa das mais difíceis para quem busca a "chefia" local.Essa
adaptação, aliás, faz parte da história do país. Já no final do Império e
em especial na República Velha (1889-1930), os chamados "coronéis", até
então acostumados a conseguir os votos na base da violência, tiveram de
iniciar um processo de negociação quando os eleitores descobriram que
poderiam, sim, escolher os candidatos.
Em
troca do voto, os mandões locais se adaptaram: cederam à barganha e
ofereceram favores aos eleitores, desde as antigas dentaduras até as
atuais "carradas" de água para encher as cisternas. Um único item da
nova regra, porém, deve frear a criação de novas cidades. A etapa final
do processo, o plebiscito, terá os votos tanto dos eleitores do distrito
como daqueles prestes a perder um pedaço de seu município. O recente
plebiscito para a divisão do Pará em três Estados mostrou isso. A
população majoritária do Estado de origem pesou para rejeitar a criação
do Tapajós e Carajás.
Nos
dias de hoje, para um distrito ter mais votos do que a cidade de origem
é preciso algo excepcional, como quando a vila de Tabuleiro Grande
explodiu em população com a presença do padre Cícero, se emancipou do
Crato e virou a Juazeiro do Norte.

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