Todos sabem recitar a regra popular sobre a mente de homens e mulheres:
enquanto o cérebro masculino é bom para ação motora e visão espacial, o
feminino supera em linguagem e sociabilidade. Essa estereotipagem ainda é
debatida, mas neurocientistas oferecem agora evidências físicas a favor
da teoria.
Um estudo feito na Universidade da Pensilvânia indica que homens têm
ênfase maior que mulheres nas conexões entre os neurônios dentro de cada
hemisfério cerebral. E mulheres, por sua vez, têm em média mais
conectividade entre um hemisfério e outro (veja quadro abaixo).
| Alex Argozino/Editoria de Arte/Folhapress | |
Segundo artigo dos cientistas na revista "PNAS" , essa diferença
coincide com o tipo de funcionalidade cerebral associada às habilidades
mais femininas e mais masculinas. O mapeamento de conectividade cerebral
feito pelo grupo usou a ressonância magnética por difusão, uma técnica
capaz de enxergar mechas finas de axônios, os "cabos" que conectam os
núcleos dos neurônios.
Outros estudos já mostravam algumas diferenças que existem entre
cérebros de homens e mulheres "mas não explicavam essa
complementaridade" de habilidades, afirma o texto do artigo. O trabalho
foi liderado pela neurocientista Ragini Verma e assinado por mais nove
colegas.
Para chegar à conclusão, os cientistas submeteram 949 pessoas de 8 a 22
anos de idade ao mapeamento por ressonância magnética. A conclusão do
estudo, apesar de fraseada de modo diferente, remete ao tipo de divisão
de habilidades psicológica incorporado à cultura popular.
"Cérebros masculinos são estruturados para facilitar a conectividade
entre ação coordenada e percepção", diz Verma, "enquanto cérebros
femininos são projetados para facilitar a comunicação entre os modos de
processamento intuitivo e analítico".
NATUREZA E CRIAÇÃO
As diferenças mais acentuadas no novo estudo de mapeamento cerebral, porém, só foram vistas em adultos, afirmam os autores do trabalho. Meninas e meninos não exibiam, em média, a disparidade anatômica que foi vista em homens e mulheres. Isso abre espaço para que a origem das diferenças seja cultural e não de nascimento.
Outras diferenças anatômicas vistas pelo estudo de Verma já eram
conhecidas. Uma delas é o fato de mulheres possuírem mais massa cinzenta
(parte do cérebro que concentra núcleos de neurônios) do que homens, em
relação ao tamanho de seu cérebro. Eles, por sua vez, têm mais massa
branca (composta de axônios, os "cabos" que conectam neurônios).
Essa distinção, contudo, não parece ter relação com comportamento. E os
estudos cognitivos nos quais Verma encaixa suas descobertas anatômicas,
além disso, não parecem ser ainda consenso firme entre pesquisadores.
"A evidência que eu conheço é que, quando existem diferenças
quantitativas, elas são mínimas e têm uma influência cultural
gigantesca", afirma a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, professora
da UFRJ. "A cultura indica a expectativa, porque o estereótipo é
essencialmente incutir expectativas diferentes em meninos e meninas."
Verma, porém, defende a correlação apontada pelo estudo, que usou um
mapeamento de última geração em uma amostra de voluntários com tamanho
inédito.

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