ceara.
O fato de o traficante exercer uma atividade ilegal faz com que ele não possa ser autuado por exploração.
A utilização, recrutamento ou a oferta de crianças para a realização de
atividade ilícitas, em particular a produção e o tráfico de
entorpecentes, é considerada pela Organização Internacional do Trabalho
(OIT) uma das piores formas de trabalho infantil.
Antônio de Oliveira Lima, procurador-chefe do Ministério Público do
Trabalho (MPT-CE), destaca que, nas condições normais, como trata-se de
uma atividade ilegal, não tem como o traficante ser autuado, como se faz
com uma empresa.
Para ele, trata-se de uma situação na qual tem de se
trabalhar muito mais a prevenção.
E, nos casos em que já há o
envolvimento dessas crianças com o tráfico de drogas, é preciso
desenvolver estratégias para resgatá-las.
Esse mercado ilegal avança nos locais onde não há proteção para as
crianças por parte da família, escola e igreja, explica o procurador.
Algumas estratégias que cita para combater essa realidade seriam a
oferta de escolas em tempo integral na rede pública de ensino e de
atividades esportivas e culturais nas comunidades.
"Na falta dessas
políticas públicas, o tráfico aparece como uma alternativa para as
crianças, até elas descobrirem que trata-se de uma grande cilada, um
caminho sem volta e que não têm como sair. Às vezes, o grau de
dependência delas é tão grande que elas não conseguem nem ter essa
percepção", diz.
Causas
"Por que as crianças estão se aproximando das drogas? O que faz com que
elas busquem nos entorpecentes uma solução?", questiona Lima.
O
procurador defende que o importante é estudar esse fenômeno a partir das
suas causas, mapear os espaços comunitários onde vivem as crianças e
adolescentes e verificar como o Estado ocupa essas áreas, que estão
sendo dominados pelo tráfico de drogas.
"Quando você identifica esses ambientes, observa que ali estão faltando
políticas públicas. Primeiro, elas são arregimentadas como consumidoras
e, depois, têm que trabalhar para pagar o vício. Para pagar a pedra,
ela tem que vender pedra.
Eles veem essa forma de atuação como uma
oportunidade de sobrevivência, mas uma sobrevivência de curto prazo",
observa.
Compreendendo esse fenômeno, acrescenta o procurador, é possível se
pensar em um conjunto de ações que busque ocupar o espaço dominado pela
venda de drogas.
"O traficante sempre vai procurar locais onde não tem
políticas públicas para dar conta das demandas da sociedade, então
rapidamente consegue pessoas para trabalhar", diz.
Na visão de Lima, a estratégia é os espaços serem ocupados com projetos
esportivos e culturais.
"As crianças adoram música, dança, esporte. É
preciso levar às comunidades alternativas para os meninos e meninas que
não recebem afetividade em casa.
Quando encontram nas ruas um espaço
onde possam traçar um projeto de vida, podem perceber a importância de
estudar, se sentem valorizados no ambiente que ocupam.
Esse trabalho tem
que ser feito nas comunidades dominadas pelo tráfico".
O procurador acrescenta que é preciso buscar estratégias para que
crianças e adolescentes não sintam necessidade de consumir drogas, pois,
após o consumo, não se pode esperar delas uma ação de reconhecer que
estão ali e precisam fazer o caminho de volta. Mesmo porque, muitas
vezes, não há condições para reagir.
Antes de serem vítimas, os jovens
precisam ter em mente que não é aquilo que eles querem para a vida.
Motivação
"A motivação para a vivência nas ruas por essas crianças e adolescentes
é provocada por uma sucessão de violações no eixo familiar e
comunitário", afirma o sociólogo Benjamin Lucas. São jovens que se
deparam com situações violentas protagonizadas por parentes próximos,
como o pai, tio, irmão.
Porém, Lucas ressalta que a criminalização dessas famílias,
constituídas por diversos arranjos, não é a solução, já que elas também
são vitimizadas por uma realidade desigual, morando em bairros onde os
serviços públicos básicos mal existem e a criminalidade e o tráfico de
drogas tornaram-se um cotidiano que invade a casa das pessoas.
Geovani Jacó de Freitas, integrante do Laboratório de Estudos da
Conflitualidade e Violência (Covio) da Universidade Estadual do Ceará
(Uece), comenta que, por trás de toda a violência urbana que existe no
Ceará, há um conjunto de pequenas sociabilidades cotidianas violentas
que deixaram de ser percebidas e consideradas como tais.
As maiores vítimas dessa violência, sejam como agressores ou vítimas,
afirma o especialista, são os jovens do sexo masculino, negros e de
escolaridade baixa.
Jacó diz que a falta de ações públicas planejadas e
efetivas de Estado, e não eleitoreiras, que venham afirmar os
agenciamentos de segurança pública não só com questão policial e, sim,
como políticas sociais integradas protetivas e principalmente
preventivas, resulta na exposição de segmentos sociais vulneráveis à
violência social e à violência do próprio estado.
O especialista destaca que a universalização do crack não é o único elo
para explicar o cenário atual, mas o modo como ele se dissemina, aliado
à ineficácia do Estado em seu conjunto na forma de enfrentamento quando
termina por punir o usuário e fazer vista grossa com o sistema que o
produz e o faz circular como mercadoria de troca.
Entrevista
A violência que se observa nas grandes capitais é fruto de quê?
Muitas pessoas militam contra essa violência direcionada para a
juventude negra, mas são contra a legalização das drogas. Isso é um
paradoxo, porque um dos carros chefes que puxa essa letalidade é a
proibição das drogas e a colocação do mercado dessas substâncias, que
são consumidas e desejadas, na ilegalidade.
Há um processo de
criminalização dos mercados ilícitos que é extremamente violento.
Isso
acontece com a proibição de substâncias como a maconha e a cocaína, que
são desejadas, mas estão no mercado ilícito, fazendo com que gangues
disputem esse espaço territorial para a venda dessas substâncias.
Existe
uma letalidade provocada na guerra entre as gangues e outra pelo
Estado, através das ações policiais de repressão militarizadas que são
direcionadas para o varejo (venda em pequenas quantidades), em que essa
juventude negra acaba operando.
Essa violência é causada por quem?
Ela não é produto da droga, é fruto da proibição. Não há essa
letalidade no comércio do álcool, porque o álcool é regulamentado.
Há
uma distinção arbitrária entre drogas lícitas e ilícitas, mas não tem
nenhum marco científico, pelo contrário, e existem pesquisas que provam
que drogas legais são, muitas vezes, mais lesivas do que provas ilegais.
O tabaco, por exemplo, é muito mais lesivo do que a maconha, mas o
tabaco é uma droga legal e a maconha não.
A legalização das drogas seria
um marco para a redução dessa violência.
Crianças, ainda muito pequenas, estão sendo cooptadas pelo tráfico. Como você avalia esse cenário?
Essas crianças que viviam nas ruas e estão migrando para as comunidades
para trabalhar junto ao tráfico demonstra que a proibição joga esses
setores mais pobres da população nesse mercado ilícito. É uma
hipocrisia, porque toda a repressão se volta para o varejo dessas
substâncias, quando na verdade o varejo é que tem a menor lucratividade.
A base econômica do mercado das drogas ilícitas não está nos guetos e
favelas, está nos grandes distribuidores, ao passo que esse extermínio
todo é direcionado para a população pobre.
Qual o papel do crack nesse cenário?
Todo o pânico que se estabelece em relação ao crack é muito mais devido
à condição social do usuário do que propriamente pelo efeito do
consumo.
Se cria a ideia de que toda a miséria e condição decadente que
ocorre dentro dos ambientes de consumo de crack se devem ao espaço,
quando na verdade o crack entra nessas ambientes porque eles já eram
degradados.
Se formos parar para observar, esses usuários de crack não
são contemplados com políticas públicas de educação, saúde, esporte,
eles estão abandonados, em condições deploráveis, e quando o crack entra
é mais como consequência do que causa dessas condições.
Não tem como a
gente falar de políticas para drogas sem relacionar com outras políticas
públicas.
A questão da segurança pública passa a ser um mecanismo para
desviar a atenção de que é necessário que o Estado se apresente não só
com mais Polícia.
Esse discurso é só para desviar a atenção da falência
do Estado em resolver essas questões pelas quais ele deveria se propor a
resolver, de saúde, educação, habitação, cultura, esporte, lazer.
Seria então um problema social?
Estamos tentando resolver problemas sociais com segurança, com polícia,
e nós acreditamos nisso, porque o discurso moral do medo entra nos
lares e as pessoas passam a acreditar que a segurança é capaz de
resolver os problemas sociais.
Não basta dizer que é uma questão social,
nós temos que denunciar que os estados estão se militarizando no
sentido de tentar propor a resolução desses problemas através de
mecanismos de segurança, com ocupação militar de áreas pobres. É nesse
debate que nós temos que nos aprofundar.
De que forma a militarização da
segurança e a guerra às drogas entram nesse contexto de falência do
Estado? Senão, fica muito pueril. No atual modelo econômico que nós
chegamos de avanço do capitalismo, eu não sei se o Estado tem condições
de contemplar a solução desses problemas sem mexer na ordem econômica.
Se você for analisar, talvez Fortaleza tenha tido crescimento econômico,
mas esse crescimento não é contemplado com a distribuição dele. São
sempre os mesmos que se beneficiam e, quanto mais eles se beneficiam,
mais se distanciam em relação àqueles que não estão contemplados pela
distribuição desse crescimento. Então, crescimento econômico para quê?
Para ter mais violência. Tudo tem a lógica do lucro.
Orlando Zaccone Filho
Delegado da Polícia Civil do Rio de Janeiro*
*Responsável pelo inquérito inicial do caso Amarildo
fonte: diário do nordeste

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