Projeto que propõe mudanças na reforma política agora retorna
à Câmara. Oposição critica mudança em redação; OAB comemorou alteração.
BRASÍLIA — Uma reviravolta comandada por senadores do PT e da base aliada levou o Senado a aprovar nesta quarta-feira o fim das doações de empresas para campanhas políticas.
O substitutivo do Senado modificou o Projeto
de Lei da Câmara (PLC) aprovado pelos deputados federais. Com a alteração, o
PLC retoma a Câmara, onde poderá ser acatado ou ainda retomar ao formato
original.
O projeto enviado pela Câmara previa a doação de empresas
exclusivamente para partidos, com o limite de R$ 20 milhões por corporação.
Inicialmente, o plenário do Senado aprovou o substitutivo do relator Romero
Jucá (PMDB-RR), que previa a doação empresarial para partidos até o limite de
R$ 10 milhões.
Para doação de pessoa física, o limite seria de 10% dos
rendimentos recebidos no ano anterior à eleição.
No entanto, o substitutivo
caiu com a aprovação de uma subemenda construída por Jucá, a partir de uma
emenda autoria da senadora Vanessa Grazziottin (PcdoB-AM), que veda
completamente as doações empresariais; e outra emenda permitindo apenas doações
de pessoas físicas até o limite dos ganhos tributáveis do ano anterior.
OPOSIÇÃO CRÍTICA TEXTO; OAB COMEMORA
Senadores da oposição travaram um embate com os governistas
após se irritarem com a estratégia de Jucá, de apresentar a subemenda com um
limite alto para as doações de pessoas físicas.
Mas a proposta acabou sendo
derrotada, por 36 votos contra 31. Pelo texto aprovado, as empresas não podem
doar como pessoa jurídica, mas os donos como pessoa física.
— Foi um grande passo para descriminalizar a política. Na
minha opinião estamos fazendo história hoje.
Ano passado os gastos de campanha
chegaram a R$ 5 bilhões — comemorou o senador Jorge Viana (PT-AC), presidente
da comissão especial da reforma política do Senado.
Mesmo só com doações individuais, os recursos só podem ser
passados aos partidos, que por sua vez repassam aos candidatos, na chamadas
“doações ocultas”.
— Não foi o ideal porque o teto de doações é muito alto, mas
é um avanço. Não bota a empresa, bota o dono da empresa — disse a senadora
Vanessa Grazziotin.
Para derrubar as doações de empresas, os governistas,
liderados por Jorge Viana, argumentaram que doações empresariais estavam na
origem de todos os escândalos de corrupção desde o regime militar.
O debate
acabou gerando um bate-boca, já que integrantes do Democratas e do PSDB
alegaram que, justamente o PT, tem nomes envolvidos na Operação Lava-Jato, que
investiga o uso de recursos de propina para campanhas do partido e, agora, quer
criminalizar as doações empresariais.
— Perdoem a dureza da palavra, mas quem está criminalizando é
quem praticou o crime de extorsão, lavando dinheiro como doação de campanha, e
depois lavou de novo com uso de empresas fantasmas para sobrar algum. Agora
querem criminalizar? É muita ingenuidade achar que vamos cair nessa armadilha —
atacou o líder do PSDB, Cássio Cunha Lima (PB), argumentando que, sem doação de
empresas, recursos podem ser repassados por pessoas físicas a sindicados e
movimentos sociais aparelhados “por baixo do pano”.
O discurso de Cássio Cunha Lima provocou irritação nos
petistas, que acabaram acusando os tucanos de terem iniciado o esquema de uso
de desvios de recursos empresariais, no chamado mensalão tucano.
Segundo Viana,
defensor do fim das doações empresariais, hoje, financiamento privado de
campanhas políticas virou sinônimo de escândalo de corrupção:
— Querer botar na conta do PT os escândalos de relação de
empresários com campanhas? Quem criou o mensalão mineiro para financiar partido
em 2005 foi o PSDB. Nós fomos copiar o PSDB e nos demos muito mal — rebateu
Viana.
Os petistas e o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP)
argumentaram que o Tribunal Superior Eleitoral já votou pelo fim das doações
empresariais, mas o ministro Gilmar Mendes segura a votação há mais de um ano,
com pedido de vista.
Já o líder do Democratas, Ronaldo Caiado (GO), alertou para o
risco de, proibido o financiamento empresarial, no financiamento público
poderia haver repasse de recursos para sindicatos e movimentos sociais como o
MST, de forma mascarada.
— O PT está criando uma empresa financiadora de campanhas
eleitorais através dos 15 mil sindicatos que existem hoje no País. A CUT
movimenta hoje R$2.4 bilhões de contribuições compulsórias.
Se olharmos
prestação de contas da presidente Dilma, veremos lá centenas de doadores
beneficiados pelo Bolsa Família que não tem condições de doar mas esquentam
doações.
Não vamos permitir que o PT crie mais uma estatal para financiar o
partido — protestou Caiado.
Apesar das críticas, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)
comemorou o fim das doações por empresas.
Em nota, o presidente da instituição,
Marcus Vinicius Furtado Côelho, parabenizou o Senado "por exteriorizar o
sentimento da nação brasileira".
Segundo o texto, "a relação
imprópria entre empresas, candidatos e partidos está no germe da corrupção
eleitoral e administrativa", e a maioria da população quer "uma nova
forma de fazer política, com redução de gastos de campanhas. Não quer mais
campanhas milionárias, Hollywoodianas”.
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MUDANÇAS NA TROCA DE PARTIDO
Dentro da discussão da reforma política, o Senado aprovou
hoje uma janela permanente para o troca-troca partidário.
A proposta foi
aprovada de forma simbólica. Segundo o texto, os candidatos a qualquer tipo de
pleito poderão trocar de partido 13 dias antes da eleição, o que significa um
mês antes do prazo atual de filiação.
Pelas regras atuais, o político pode
trocar de partido um ano antes — 12 meses — da eleição. A emenda é de autoria
do senador Roberto Rocha (PSB-MA).
O relator da reforma, senador Romero Jucá (PMDB-RR), foi
contra a proposta. O PT e o PMDB encaminharam contrariamente, mas o PSDB e
outros partidos encaminharam a favor.
— Quero alertar que essa será uma janela permanente, de 13
meses antes da eleição, que ocorrerá de dois em dois anos e a um mês antes do
período de filiação — disse Jucá.
O senador Aécio Neves (PSDB-MG) foi o principal defensor da
janela.
— Sei que existe a Proposta de Emenda Constitucional a
respeito. Mas é importante essa discussão agora — disse Aécio, apoiado pelo
líder do DEM, o senador Ronaldo Caiado:
— Agora, deputados estaduais, deputados federais e vereadores
também poderão mudar de partido.
Na justificativa da emenda, o senador Rocha disse que queria
a autorização para que "o agente político possa, no último ano de seu
mandato, alterar a filiação partidária sem o ônus da inelegibilidade ou da
perda de mandato".
VOTO IMPRESSO E REDUÇÃO NO TEMPO DE TV
O plenário aprovou também a emenda dos senadores Aécio Neves
e Ana Amélia (PP-RS), que reestabelece o texto já aprovado na Câmara prevendo a
possibilidade de impressão do voto, conferência pelo eleitor e depósito
automático, sem contato manual do votante. Isso é uma reivindicação dos
movimentos de rua, que criticam a vulnerabilidade das urnas eletrônicas a
fraudes e impossibilidade de conferência dos votos.
O PT tentou barrar a
mudança, alegando que isso iria ferir a inviolabilidade do voto e seria
considerado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal.
— Isso vem de encontro a expectativa de grande parte do
eleitorado. Na eventualidade de alguma denúncia de fraude, o magistrado tem a
possibilidade da conferência.
A urna eletrônica é um avanço, mas com a
impressão, a sociedade se sentirá mais confiante no sistema de apuração — disse
Aécio.
O vice-presidente da Casa Jorge Viana (PT-AC) e Lindbergh
Faria (PT-RJ) encaminharam contra.
Como presidente da comissão especial da
reforma política, Viana disse que consultou técnicos e ministros do Tribunal
Superior Eleitoral, que alertaram para a inconveniência da impressão do voto:
— Estaremos trazendo de volta o sistema mecânico. Vinte por
cento das impressoras vão dar problema e deixar o sistema, que é todo digital,
mais vulnerável.
Aécio rebateu:
— Vossa Excelência já sabe que 20% das máquinas vão dar
problema? Hoje se uma urna eletrônica dá problema ela é substituída e a votação
segue sem problema. A apuração vai se dar rapidamente como sempre, eu só
gostaria que o Acre terminasse mais cedo, mas tudo bem.
A senadora Ana Amélia explicou que uma pesquisa feita pelo
Datasenado, 92% dos pesquisados foram favoráveis a impressão do voto.
— A impressão é uma margem de segurança do eleitor. E não
haverá violação do voto, porque o eleitor não vai tirar um extrato. A impressão
fica dentro da urna.
O PT e o PCdoB foram os únicos partidos que votaram contra.
Mas a matéria foi aprovada por ampla maioria.
Outra medida aprovada foi a redução do prazo de propaganda
eleitoral no rádio e TV de 45 para 35 dias antes do primeiro turno da eleição.
Segundo Romero Jucá, a ideia é baratear o custo da campanha, que tem como
principal item de custo, a produção dos programas de rádio e TV, com locação de
estúdios e grandes equipes de jornalistas, produtores, e marqueteiro.
O prazo
de propaganda eleitoral gratuita no rádio e TV foi reduzido para 35 dias antes
da eleição, mas agora será de domingo a domingo.
FIM DO DOMICÍLIO ELEITORAL PARA CANDIDATOS
O plenário também aprovou emenda do senador José Serra
(PSDB-SP) que acaba com o domicílio eleitoral para os candidatos.
Pelo texto
aprovado, se Serra quiser se candidatar a governador ou senador em Minas Gerais
ou Alagoas, ele não precisa morar nesses estados para registrar sua
candidatura, basta ser filiado ao partido. Alguns senadores protestaram, mas
foram vencidos.
O Senado manteve a proibição nas campanhas o uso de carros de
som, trios elétricos, bicicletas com megafone e até uso de megafone pelos
candidatos.
Fonte: O Globo/ MARIA LIMA

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