O presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), renunciou por
volta das 13h30 desta quinta-feira à presidência da Câmara dos
Deputados.
"Resolvi ceder ao apelos generalizados dos meus apoiadores [...] Somente
a minha renúncia poderá pôr fim a esta instabilidade sem prazo. A
Câmara não suportará infinidamente", disse.
Eduardo Cunha chegou no início da tarde pela chapelaria da Câmara,
passou na Secretaria-Geral da Mesa e marcou a entrevista à imprensa no
Salão Nobre da Casa, apesar de ter sido autorizado pelo Supremo Tribunal
Federal (STF) a circular na Câmara apenas para se defender do processo
de cassação no Conselho de Ética ou na Comissão de Constituição e
Justiça (CCJ).
Em ocasiões anteriores, por várias vezes, Cunha negou que iria renunciar.
Com a decisão de Cunha de deixar a vaga, a Câmara terá que convocar
novas eleições no prazo de até cinco sessões plenárias – deliberativas
ou de debates com o mínimo de 51 deputados presentes - para uma espécie
de mandato-tampão, ou seja, para um nome que comandará a Casa até
fevereiro do próximo ano quando um novo presidente será eleito.
Com a renúncia, pode se encerrar o impasse sobre a permanência de
Waldir Maranhão (PP-MA) no comando da Câmara.
Maranhão assumiu o cargo
desde que Cunha foi afastado da presidência da Câmara pelo Supremo
Tribunal Federal (STF).
O descontentamento dos deputados com a condução de Maranhão provocou,
inclusive, um acordo informal para que ele não presida as sessões de
votações.
Todas as vezes em que Waldir Maranhão tentou quebrar este
acerto, os parlamentares se recusaram a discutir e votar matérias
importantes até que ele deixasse a Mesa do Plenário, que estava sendo
revezada com o primeiro-secretário, Beto Mansur (PRB-SP) e o segundo
vice-presidente da Mesa Diretora da Câmara, deputado Fernando Giacobo
(PR-PR) – possíveis candidatos à vaga provisória da presidência.
Eduardo Cunha está no quarto mandato, iniciado no PP e depois migrou
para o PMDB no período em que o partido estava dividido entre apoio ao
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a possibilidade de uma
candidatura própria.
Na eleição de 2006, Cunha integrou o grupo que
militou pela candidatura própria do PMDB mas, a partir de 2007 com
vitória de Lula no segundo turno, a legenda foi para a base do governo.
Eleito presidente da Câmara em primeiro turno no dia 1º de fevereiro de
2015, Cunha recebeu 267 votos e derrotou três candidatos, entre eles,
Arlindo Chinaglia (PT-SP), que era o candidato do Palácio do Planalto na
época, mas que obteve apenas 136 votos.
Durante a disputa e nos meses
seguintes, Cunha repetiu em diversos episódios que o governo de Dilma
Rousseff resistiu fortemente à sua candidatura à presidência da Casa, o
que, segundo ele, justificou a resistência sofrida por parte da base
aliada na época.
O comando da Câmara é exercido por dois anos, mas nos primeiros meses
Cunha já começou a sentir a pressão suscitada pelas suspeitas de seu
envolvimento em negócios ilícitos envolvendo contratos de empresas com a
Petrobras e existência de contas secretas no exterior. Essas denúncias,
aliada a reclamação de parlamentares que o acusaram de beneficiar um
grupo de deputados e conduzir as votações na Casa, serviram como estopim
para o início e avanço do processo de cassação de seu mandato.
O processo para afastar definitivamente o peemedebista começou em
outubro do ano passado, quando o PSOL e a Rede entraram com uma
representação contra Cunha alegando que ele havia mentido à Comissão
Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras, quando negou ser o titular
de contas no exterior.
No processo, que ficou marcado como o mais longo
do colegiado, durando oito meses em função do que adversários
classificaram de manobras de aliados de Cunha, a cassação acabou sendo
aprovada no dia 14 de junho, por 11 votos contra 9, no Conselho de
Ética.
A defesa de Cunha entrou com um recurso na Comissão de Constituição e
Justiça (CCJ) para tentar reverter o resultado.
Foram elencados mais de
10 pontos em que Cunha questiona a tramitação do processo, entre eles, a
intenção de aditar a representação contra ele incluindo informações
sobre recebimento de propina, o ponto que trata da votação no conselho
ter sido nominal e o que aponta que Marcos Rogério (DEM-RO) que, segundo
ele, não poderia ter continuado como relator do caso, depois de ter
mudado de partido com a janela partidária e continuar ocupando a vaga do
PDT.
Ontem (6), o relator do recurso de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que pede a
anulação da tramitação do processo de cassação dele no Conselho de Ética
da Câmara, apresentou seu parecer à Comissão de Constituição e Justiça
(CCJ).
O deputado Ronaldo Fonseca (PROS-DF) acatou parcialmente o pedido
de Cunha e recomendou uma nova votação do processo no conselho.
O
presidente da CCJ, Osmar Serraglio (PMDB-PR), marcou para 16h de
segunda-feira (11) a nova sessão para o início da discussão e votação do
parecer.
Para ser aprovado, o parecer de Fonseca precisará dos votos da maioria
dos 66 integrantes da comissão.
Havendo pedido de vista, esta
manifestação pode ocorrer apenas na próxima semana, de acordo com a
escolha do ex-presidente da Casa.
O texto será então debatido entre
parlamentares e depois o relator terá mais 20 minutos de réplica e a
defesa outros 20 minutos de tréplica antes da votação.
Se a CCJ decidir que Cunha tem razões para apontar problemas durante a
tramitação do processo, a decisão pode provocar a reabertura do caso no
conselho mas, como seria uma decisão inédita da comissão que se vê no
impasse de estar no mesmo nível hierárquico que o conselho, a decisão
final deve ser tomada pela Mesa Diretora da Câmara. Se a CCJ rejeitar os
argumentos de Cunha, o processo de cassação vai a plenário e precisa de
257 votos para qualquer que seja a decisão final.
STF
Paralelamente ao processo de cassação na Câmara, no Supremo Tribunal
Federal (STF), Cunha é alvo de pelo menos cinco processos, além de ter
sido, no último mês, afastado do comando da Casa por decisão do ministro
do STF Teori Zavascki, relator da Operação Lava Jato.
A medida,
acompanhada pelos 11 ministros da Corte, foi em resposta à acusação do
procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de que Cunha tem
atrapalhado as investigações.
O peemedebista entrou com recurso no STF pedindo para voltar à Câmara
para se defender pessoalmente no processo de cassação, o que acabou
sendo acatado pela Corte.
No STF, Cunha também responde a processo em
que é acusado de ter recebido US$ 5 milhões em propina para viabilizar
contrato de navios-sonda da Petrobras.
O STF já rejeitou o recurso
apresentado pela defesa do peemedebista.
Há ainda denúncia de que Cunha recebeu propina da Petrobras em contas
secretas no exterior e acusações de que usou o mandato para beneficiar
aliados, além da suspeita de que atuou no desvio de recursos destinados à
obra do Porto Maravilha, no Rio de Janeiro.
postado por cicero luis


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